segunda-feira, 22 de novembro de 2010

'Camponeses do Araguaia' captou sentimento do povo da região

Nesta entrevista ao Portal da Fundação Maurício Grabois (Grabois.org), o presidente da fundação, Adalberto Monteiro, e o diretor do documentário "Camponeses do Araguaia — a Guerrilha vista por dentro", Vandré Fernandes, comentam a concepção, a realização e a mensagem da obra.


4 de Novembro de 2010 - 17h45



“Como é praxe nesse tipo trabalho, a marca do diretor é determinante. Mas nem por isso ele deixou de absorver propostas, sugestões e observações. Eu e o jornalista Osvaldo Bertolino participamos do argumento do documentário. Quero registrar essa sensibilidade do Vandré, que interagiu o tempo todo conosco. Depois incorporamos mais gente na elaboração do trabalho, sempre sob a regência do diretor”, diz Adalberto Monteiro.


O documentário "Camponeses do Araguaia – A guerrilha vista por dentro", produzido pela Fundação Maurício Grabois com direção de Vandré Fernandes, está entre os 19 finalistas que concorrem ao Troféu Bandeira Paulista da 34ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. A cerimônia de entrega dos prêmios acontece nesta quinta-feira (4), quando a Mostra será encerrada. Os filmes concorrentes foram escolhidos por votação do público.

A seguir, a íntegra da entrevista.

Grabois.org : Adalberto, como surgiu a idéia de fazer o documentário?

Adalberto Monteiro: Assim que a Fundação tomou conhecimento do julgamento dos processos dos camponeses do Araguaia requerendo os direitos de reparação política e financeira previstos na Lei da Anistia devido aos danos causados pela ditadura, de pronto firmamos a convicção de que não poderíamos perder a oportunidade rara de registrar depoimentos daquelas pessoas. Todos estariam reunidos em um mesmo lugar, além dos integrantes da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, representando o Estado. E todos estavam com vontade de falar, de relatar o que aconteceu na região.

Para viabilizar a idéia, surgiu a proposta de convidar o jovem documentarista Vandré Fernandes. Foi uma boa idéia. Ao tomar conhecimento da proposta, ele sugeriu que fizéssemos um documentário. Qual era o objetivo? Além do registro daquele momento, fazer um produto que permitisse o acesso de um maior número possível de pessoas a essa história.

Grabois.org: Vandré, fale um pouco da concepção do documentário.

Vandré Fernandes: É importante ressaltar que as fundações não têm a prática de participar de documentários no Brasil. A iniciativa da Fundação Maurício Grabois é pioneira nessa parceria, que tem como tradição a participação de empresas públicas e mesmo privadas. Até por conta da redução de impostos, baseada na legislação de incentivo fiscal.

Outra questão importante é que a Fundação Maurício Grabois participou da concepção do documentário por meio dos pesquisadores do tema, os jornalistas Adalberto Monteiro e Osvaldo Bertolino. Eles ajudaram a formatar o roteiro. Por meio de trocas de informações chegamos a conclusões importantes, como a necessidade de registrar o legado da Guerrilha.

Obviamente que não deu para registrar tudo, mas o que consta do documentário saiu da cabeça dos participantes do episódio, os camponeses do Araguaia. Além disso, quero registrar a contribuição do produtor Zagallo, que deu ritmo, andamento ao documentário.

Grabois.org : Adalberto, como foram os primeiros passos para dar forma à idéia do documentário?

Adalberto Monteiro: O Vandré reagiu à proposta da Fundação com uma resposta audaciosa. Ao apresentar o pré-roteiro, transformando a nossa idéia inicial em um documentário, ele imprimiu um caráter autoral ao trabalho. Como é praxe nesse tipo trabalho, a marca do diretor é determinante.

Mas nem por isso ele deixou de absorver propostas, sugestões e observações. Tanto eu quanto o jornalista Osvaldo Bertolino participamos do argumento do documentário. Quero registrar essa sensibilidade do Vandré, que interagiu o tempo todo conosco. Depois, incorporamos mais gente na elaboração do trabalho, sempre sob a regência do diretor.

Grabois.org : Vandré, de onde vieram as informações básicas para o roteiro do documentário?

Vandré Fernandes : Muitas lideranças do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), que foi o protagonista da Guerrilha do Araguaia, deram inestimáveis contribuições. A literatura sobre o tema também ajudou muito. Destaco o livro A Guerrilha do Araguaia – a esquerda em armas, do professor Romualdo Pessoa Campos Filho, o Relatório Arroyo (escrito por um dos dirigentes da Guerrilha, Ângelo Arroyo), a Revista da Guerrilha do Araguaia, produzida pela editora Anita Garibaldi, e o livro Relato de um Guerrilhueiro, de Glênio Sá. Foram algumas obras consultadas para elaborar o roteiro.

Essas informações são elementos importantes para que o documentário chegasse onde chegou. Tomei o cuidado de evitar um tom panfletário, ou mesmo de propaganda. A idéia era produzir algo que pudesse ao mesmo tempo estar nas salas de cinema e em atividades de estudos da nossa história. Captamos o sentimento do povo da região, que, por meio do contato com os guerrilheiros, conseguiu ter acesso à educação, à assistência social — além de conhecer uma mensagem de esperança, de tomar consciência do que é a democracia.

Penso que as pessoas que não passaram por um processo marcante como aquele povo passou não têm a mesma consciência política. Eles aprenderam a lutar por seus direitos, forjaram um aprendizado político na convivência com os guerrilheiros. A gente vê que são pessoas com profundos sentimentos humanos, sem vaidades. O documentário captou esse sentimento.

Grabois.org: Adalberto, fale um pouco do papel histórico do episódio narrado pelos camponeses.

Adalberto Monteiro: O documentário se insere em um episódio da nossa história ainda inconcluso. Passados cerca de 40 anos, pode-se dizer que a Guerrilha do Araguaia ainda não terminou. Os arquivos, apesar das decisões judiciais e dos esforços do governo federal, continuam ocultos. Os corpos dos guerrilheiros e camponeses que tombaram continuam desaparecidos. São fatos inaceitáveis. Os familiares ainda não conseguiram o direito humanitário de dar um túmulo honroso aos restos mortais dos seus entes queridos.

Então, o documentário é muito importante também para assegurar o direito à memória, à verdade histórica sobre aqueles acontecimentos. Não podemos mascarar a história do nosso país. Outra importante dimensão é a da justiça, porque o documentário registra a luta dos camponeses pelo acesso a um benefício previsto na Lei de Anistia, cassado por uma liminar de um juiz federal.

O documentário mostra que eles perderam o medo, venceram os traumas e buscam seus direitos legítimos. É uma maneira de divulgar esse fato e buscar a reparação, a correção dessa injustiça.

Destaco ainda a desmistificação sobre o apoio do povo da região à Guerrilha. O documentário tem o grande mérito de dar a palavra aos camponeses. E emerge, como o Vandré registrou, depoimentos pungentes das pessoas simples da região, de um povo humilde. Depoimentos consistentes, longe da caricatura que a ditadura e mesmo outras análises desfiguradas apresentaram. O documentário mostra que aquele povo tem gratidão pela mensagem de justiça, pelos laços de fraternidade mútua estabelecidos com os guerrilheiros.

Grabois.org: Vandré, como você avalia os resultados do documentário nos locais onde ele foi apresentado?

Vandré Fernandes: O documentário foi exibido nos festivais do Rio de Janeiro e de São Paulo, o que demonstra seu êxito. Eu diria que se ele ajudar a reparar essa injustiça que é a cassação dos benefícios dos camponeses já é uma grande vitória.

Na mostra de São Paulo, quando houve debates com a platéia, muitos perguntaram sobre a reversão da liminar que derrubou temporariamente a decisão da Comissão de Anistia. Mas a idéia é fazer dele um instrumento de análises das lutas por transformações em nosso país.

Grabois.org : E o formato, agradou?

Vandré: Sim. Procurei deixar a câmara fixa, fazendo um enquadramento com pouca variação. A idéia é passar um sentimento de que o espectador está entrando na casa dos camponeses para ouvir uma história. Eles são bons contadores de história. A gente consegue interagir com seus sentimentos, criando uma afeição — como se eles fossem nossos tios ou avós. Brota uma solidariedade, uma interação sentimental com a vida daquele povo.

Como falei, no debate que fiz na mostra de São Paulo isso ficou bem demonstrado. Houve até uma senhora que se manifestou após o encerramento da exibição, dizendo que ali estava uma história que justificava o voto na candidata à Presidência da República, Dilma Rousseff. Então, o documentário traz à tona esse sentimento.

Grabois.org: Adalberto, você, como artesão da palavra, como avalia essa peculiaridade da narrativa dos camponeses?

Adalberto Monteiro: Esse povo privado da educação formal, da cultura formal, desenvolveu a riqueza da oralidade. A ele foi negado o alfabeto. Emergiu então a capacidade de narrar, de contar história. E os depoimentos no documentário criam essa empatia lembrada pelo Vandré ao mostrar, de maneira didática, fidelidade aos fatos. A fluência da oralidade é uma qualidade do documentário que o Vandré soube trabalhar. Não é uma narrativa monótona. Você se embevece, cativado pela cadência, pelo ritmo das falas dos camponeses.

Como dizia João Amazonas (histórico dirigente do PCdoB, que participou da Guerrilha), ao falar daqueles acontecimentos surgem, além das atrocidades cometidas pela repressão, coisas inerentes aos combates e um sentimento de fraternidade. Um exemplo é aquela passagem em que um camponês fala da escolinha da Áurea, construída por um mutirão.

Era um barracão de paredes de barro, coberto com palha, que funcionou por mais de um ano. Foi uma forma que os camponeses encontraram para alfabetizar suas crianças. Foi uma troca: por um lado, os guerrilheiros levaram consciência, mensagens de um mundo melhor, de solidariedade; por outro, receberam instruções sobre como viver na mata, como absorver os costumes da região.

São coisas ricas, de um conteúdo humanitário muito significativo. Por isso, a Fundação tem a expectativa de que o documentário seja apresentado para a maior quantidade possível de pessoas. Não só nos espaços de cinema, mas também em auditórios de instituições públicas e privadas, nos sindicatos, nas organizações populares.

Grabois.org: Vandré, fale um pouco dos colaboradores do documentário.

Vandré Fernandes: Além do Bruno Mith, um cineasta premiado, responsável pela qualidade da fotografia, destaco a participação importantíssima do Zezinho do Araguaia. Ele nos acompanhou nas gravações, dando orientações, sugerindo entrevistas, prestando informações. Muitas vezes ele até orientava o jornalista Osvaldo Bertolino, responsável pelas entrevistas com os camponeses, sugerindo perguntas e lembrando fatos ocorridos na época da Guerrilha.

Outra figura importante foi a dona Neuza, esposa do guerrilheiro Amaro Lins. Como profunda conhecedora do episódio, ela nos ajudou de uma forma significativa. Foi, além disso, um suporte para o nosso trabalho. Antes das gravações, abriu sua casa em São Geraldo Araguaia para uma reunião de camponeses na qual foi possível fazer uma triagem dos personagens que iriam participar do documentário.

Outra colaboração decisiva veio do Zé da Onça, que nos conduziu à casa de seus pais, a dona Adalgisa e seu Frederico, personagens centrais dos acontecimentos da Guerrilha. Destaco também a contribuição do Dolglas — assim mesmo, com “l” —, que, deslocado pelo PCdoB do Estado do Pará para ser o nosso motorista, acabou incorporado à equipe. Foi o nosso microfonista. Muitas vezes, ele pegava a câmara fotográfica e, no meio da mata, registrava as gravações.

Também quero lembrar o pessoal da Comissão de Anistia, especialmente o presidente, Paulo Abrão, e o conselheiro Egmar — que prestaram ajudas inestimáveis. O Renato Rabelo, presidente do PCdoB, foi outro personagem importante. Sempre que procurado, nos atendeu prontamente. Lembro ainda a valiosa colaboração do Aldo Arantes, da jornalista Renata Mielli, do jornalista Luis Carlos Antero, do historiador Augusto Buonicore e do Guido Abreu — que deu importantíssimas sugestões com sua experiência na produção de vídeos.

Faço uma menção especial ao Leocir Rosa, o responsável pela produção executiva, que teve um papel decisivo para a realização do documentário. Para finalizar, quero agradecer ao PCdoB do Pará e ao governo daquele Estado pelo importante apoio à equipe de filmagem. Quero agradecer também à TV mirante, do Estado do Maranhão, que nos cedeu imagens da época. E, finalmente, aos compositores Du Oliveira e Itamar Correa, que gentilmente cederam as músicas da trilha sonora do documentário. Além do povo generoso do Araguaia, essas pessoas foram decisivas para a realização do documentário.

Fonte: Grabois.org

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=11&id_noticia=140832

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