sábado, 14 de agosto de 2010

Dossiê Araguaia - Parte II

Em 12 de Abril de 1972 várias tropas oficiais atacam simultaneamente no Araguaia, numa operação repressiva de grande envergadura, chamada Axixá, e a partir daquela data o sul do Pará irá conhecer toda selvageria do regime dos generais.


Os contingentes da opressão atacaram moradores dos sertões do Araguaia, buscando prender e liquidar fisicamente os elementos mais pujantes da massa seja pela clareza política ou decisão férrea de participar da luta e, ao mesmo tempo atemorizar e subjugar todo o povo daqueles rincões. Usando aviões e helicópteros, lanchas da Marinha de Guerra e milhares de soldados, ocuparam a região que vai de Conceição do Araguaia, passando por Xambioá até Marabá. Através de estradas e picadas, penetraram na selva em busca de "subversivos" e exigiam a imediata capitulação dos camponeses. Ao invés de submeterem-se, muitos, os mais resolutos, resolveram revidar as agressões da ditadura.

O Exercito empreendeu três grandes e aparatosas campanhas de Cerco e Aniquilamento contra os guerrilheiros do PC do B. Toda essa movimentação militar durou dois anos e nove meses, de abril de 1972 a janeiro de 1975. Em conjunto com a Aeronáutica, a Marinha e Policias Militares, contando com modernos armamentos e vastos recursos materiais, além de utilizarem-se do apoio de grandes empresas como a Camargo Corrêa e a Mendes Junior. Na primeira campanha, entre abril /junho de 1972 pôs-se em ação 5 mil homens; na segunda, entre setembro/novembro de 1972, empregou 15 mil homens; na terceira, entre outubro de 1973 até maio de 1974 mobilizou-se entre 5 a 6 mil soldados.

No conjunto das ações repressivas todas as cidades, vilas e currutelas da região foram invadidas por tropas ensandecidas, além de fazendas e sedes de castanhais. Muitas centenas de trabalhadores rurais foram presos, espancados e torturados, seus barracos foram queimados e roças destruídas, com seus paiós de milho e arroz. Populares foram assassinados e muitos dos aprisionados ou feridos em combate tiveram suas vidas ceifadas friamente. Padres e freiras foram submetidos a vexames e humilhações, além de comerciantes e pessoas influentes.

O governo federal de então criou, ainda, cinco batalhões de Infantaria de Selva e construiu rapidamente enormes instalações militares na Amazônia, além das muitas estradas para articular a movimentação de tropas. A região foi praticamente isolada do resto do país e, para se ter idéia foram confeccionadas carteiras especiais de identificação para que as gentes pudessem circular em toda área deflagrada.

O Exército recorreu ao expediente da chamada Operação Aciso, fornecendo remédios e extraindo dentes, procurando iludir os camponeses pobres do Araguaia. O Incra, por seu turno, fez promessas de legalização de posses. No curso das manobras militares foram gastos vultosos recursos financeiros da nação brasileira.

Uma parcela significativa de araguaianos decidiu pelo caminho da resistência e perfilaram-se ao lado da guerrilha no sentido de desfraldarem a defesa do povo pobre, da luta pela terra e pelos direitos daqueles que viviam abandonados no interior do país. Formularam uma agenda, um programa que expressava as reivindicações mais sentidas da região as quais, por sua natureza, eram semelhantes às de outras muitas zonas pobres do Brasil rural da época. É impressionante, mesmo passados mais de 37 anos de sua elaboração, como tal documento guarda grande atualidade. Tudo isto desencadeou a formação da União pela Liberdade e pelos Direitos do Povo (ULDP) que tinha por objetivo político congregar, em frente única, a população daquelas paragens.

Ao mesmo tempo, como decorrência da ação que estavam empenhados contra as tropas federais buscou realizar a propaganda no sentido de liquidar o regime antipopular e antinacional pugnando pela unidade dos oprimidos do interior com as enormes massas populares das cidades no sentido de derrubar a ditadura fascista.

As Forças Guerrilheiras do Araguaia, organizadas como uma espécie de braço armado do povo realizou um conjunto de ações contra os contingentes governistas, desde simples ações de fustigamento até emboscadas e assaltos a postos militares, como foi o caso da pequena caserna localizada na entrada de Apinagés, quilometro 48 da Transamazônica. Justiçaram, também, pistoleiros e bate-paus, através de tribunais populares.

Os guerrilheiros inauguraram, no Brasil, o sistema de luta na selva recolhendo fecunda experiência militar que até hoje é utilizada pelos centros de formação do Exército brasileiro, particularmente o Cigs de Manaus. Tal sistema de luta permitiu uma resistência armada que conseguiu subsistir organizadamente aos furiosos ataques das tropas legalistas baseando-se em suas próprias forças e com amplo apoio popular.

Segundo o "Relatório Sobre a Luta no Araguaia", de Ângelo Arroyo, havia na região 69 guerrilheiros, com boas reservas de alimentos, roupas, remédios e munição, mas com um armamento precaríssimo quando os embates começaram. O destacamento A tinha 4 fuzis, 4 rifles 44, uma metralhadora fabricada no local, uma metralhadora INA, 6 espingardas 20 e duas carabinas 22. O destacamento B possuía um fuzil, uma submetralhadora Royal, 6 rifles 44, uma metralhadora fabricada no local, uma espingarda 16 de dois canos, uma espingarda 16 de um cano só, 6 espingardas 20, uma espingarda 36 e duas carabinas 22. O destacamento C tinha 4 fuzis, alguns rifles 44, espingardas 20 e carabinas 22. A Comissão Militar portava 2 espingardas 20.

Eram armas obsoletas e defeituosas. Alguns fuzis vieram de Brasília, pegos por militantes do PC do B quando no inicio dos anos 60 houve um levante de Sargentos.

Segundo João Amazonas, principal formulador do pensamento político do PC do B nos últimos quarenta anos, afirmara: "eram umas porcarias, alto como o diabo, encostavam em tudo que é coisa, pesados para caramba".

Todos os guerrilheiros portavam revólveres 38, com mais de 40 balas cada. A adaptação à região ainda era incipiente – muitos dos combatentes acabavam por chegar à região e estavam iniciando o aprendizado dos procedimentos básicos de sobrevivência na mata. Havia, também, pouco dinheiro disponível.

A Guerrilha atuava numa área imensa, com cerca de 130 quilômetros de comprimento por 50 de fundo – um total de cerca de 6.500 quilômetros quadrados, com população estimada em 20 mil habitantes.

Aspecto irá chamar a atenção dos órgãos da repressão política fora o alerta dado pelas polícias militares de Marabá e Xambioá denunciando a presença de subversivos na região.

As polícias daqueles sertões eram informadas constantemente por grileiros e fazendeiros, acostumados a resolver a bala e sem revide os seus problemas com os lavradores, de que havia certa resistência, comandada por uns "paulistas". As informações iam além: os "paulistas" ensinavam o povo dos lugarejos a ler, e que havia até médicos no meio deles, porque distribuíam muitos remédios "que não eram amostra grátis", segundo a memória de um morador da região.

Sabe-se, através de fontes militares, que houve um erro de avaliação por parte das Forças Armadas. O próprio Governo Federal subestimou as investigações na área e a questão ficou basicamente circunscrita ao Serviço Nacional de Informações (SNI) e Órgãos paralelos, como o DOI-CODI.

Quando as Forças Armadas tomam consciência de que os "paulistas" não eram subversivos comuns, em fase de ‘refrescamento’ que, no jargão militar de então eram militantes fichados no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e que saiam de circulação até as coisas se acalmarem; e sim se tratava de uma força militar organizada pelo PC do B com amplo apoio popular, a região do Araguaia vivenciou uma verdadeira ocupação por tropas governamentais.

Sabe-se hoje, com rigor documental, que as três Campanhas de Cerco e Aniquilamento contou com a presença de milhares de homens das três Forças Armadas além das Policias Militares do Pará, Maranhão e Goiás fazendo de Marabá e Xambioá suas cidades-quartéis. Sabe-se, também, que tanto a CIA quanto militares portugueses envolvidos na repressão contra as lutas indenpedentistas na África participaram do processo de colaboração com os militares brasileiros. Aliás, o próprio EUA formou grande parte dos torturadores brasileiros através da Operação Condor da Escola do Panamá, maior centro de formação de violações de direitos humanos que se têm notícia na América Latina.

Enquanto testemunho histórico, o Comunicado nº.1 das Forças Guerrilheiras do Araguaia de 25 de maio de 1972 na qual a Comissão Militar dos Combatentes edita seu primeiro informe, onde buscava esclarecer a massa sobre os motivos e objetivos da luta. A propaganda guerrilheira voltava o foco contra a ditadura e a prática da grilagem de terras, tão comuns até hoje na Amazônia. A seguir transcrevemos na íntegra este importante documento:

"Aos posseiros, trabalhadores do campo e a todas as pessoas progressistas do sul do Pará, oeste do Maranhão e norte do Goiás. Aos moradores dos municípios de Marabá, São João do Araguaia, Conceição do Araguaia, Araguatins, Xambioá, Imperatriz, Tocantinópolis, Porto Franco e Araguaína.

Ao povo brasileiro.

No passado mês de abril, tropas do Exército, em operações conjuntas com a aeronáutica, marinha e polícia militar do Pará, atacaram de surpresa antigos moradores das margens do rio Araguaia e de diversos locais situados entre São Domingos das Latas e São Geraldo, prendendo e espancando diversas pessoas, queimando casas, destruindo depósitos de arroz e outros cereais e danificando plantações. Esse traiçoeiro ato de violência, praticado contra honestos trabalhadores do campo, é mais um dos inúmeros crimes que a ditadura militar vem cometendo em todo o país, contra camponeses, operários, estudantes, democratas e patriotas.

O governo dos generais procura difamar as vitimas de suas arbitrariedades, espalhando que se trata de ação realizada contra marginais, contrabandistas e assaltantes de banco. Mas a população da região não acredita em tais mentiras. Conhece, há muitos anos, os perseguidos, todas pessoas corretas, dedicadas ao trabalho e amigas dos pobres, sempre prestativas e solidárias com o povo, em particular com os que são espoliados pelos grileiros e alvo das injustiças da polícia. Os soldados as agrediram porque elas não querem viver como escravas sob o chicote dos militares que, acabando por completo com as liberdade, oprimem impiedosamente os brasileiros e enxovalham a nação.

Diante do criminoso ataque das Forças Armadas governamentais, muitos habitantes das zonas de São Domingos das Larvas, Brejo Grande, Araguatins, Palestina, Itamirim, Santa Izabel, Santa Cruz e São Geraldo resolveram não se entregar. Armaram-se com o que puderam e enfrentaram corajosamente o arbítrio e a prepotência do Exército e da polícia. Com tal objetivo, internaram-se nas matas do Pará, Goiás e Maranhão para resistir com êxito ao inimigo muito mais numeroso e melhor armado. A fim de desbaratar as operações militares da ditadura, defender suas vidas e desenvolver sua luta pela posse da terra, pela liberdade e por uma existência melhor para toda a população, decidiram formar destacamentos armados, criaram as Forças Guerrilheiras do Araguaia. Tomaram, também, a iniciativa de fundar ampla frente popular para mobilizar e organizar os que almejam o progresso e o bem estar, os que não se conformam com a fome e a miséria, com o abandono e a opressão.

Desse modo, surgiu a União Pela Liberdade e Pelos Direitos do Povo (ULDP), onde podem ingressar os moradores das regiões da região e de outros estados, muitos dos quais vem tendo suas terras roubadas por gananciosos grileiros e são perseguidos, presos e espancados pelos agentes da ditadura. Nela há lugar não só para os pobres como também para todos os patriotas, seja qual for sua condição social, que desejem por abaixo a ditadura e instaurar no Brasil um regime verdadeiramente democrático.

Este movimento lançou um manifesto em defesa do povo pobre e pelo progresso do interior, refletindo as mais profundas aspirações populares por uma vida digna e feliz. No documento estão incluídas as reivindicações mais sentidas da população local, que constituem o programa da ULDP, a bandeira de luta da pobreza e de todos os elementos progressistas favoráveis ao desenvolvimento efetivo das regiões atrasadas.

Por sua vez, as Forças Guerrilheiras do Araguaia mostram-se firmemente dispostas a combater os soldados da ditadura. Na zona próxima a Santa Cruz, alguns combatentes dessas forças defrontaram-se com inimigos superiores em número, matando um, ferindo outro e dispersando os demais. As tropas do Exército, depois de cometer inúmeras arbitrariedades contra moradores da região, sem revelar até agora disposição de luta nas matas, retiram-se temporariamente, das zonas onde atuam os destacamentos do povo e concentraram-se em cidades, em povoados e corrutelas. Nada valeram os grandes é aparatosos efetivos militares, os helicópteros e aviões, o armamento moderno das Forças Armadas do governo. Em vasta área os lutadores do povo, de armas nas mãos, usando a tática da guerrilha, realizaram a propaganda das idéias e do programa da ULDP entre os moradores, que os apóiam com entusiasmo e repelem as calúnias difundidas pela ditadura contra os revolucionários.

A luta armada que se desenvolve no sul do Pará e em outros lugares vem contando com a simpatia de amplo setores da população não só do campo como também de importantes cidades situadas em redor da região rebelada. Isso porque a luta ora iniciada é de todos os oprimidos, de todos os que não aceitaram o cativeiro e anseiam derrubar o regime político tirânico imposto pelos militares. Não por acaso, os generais escondem os motivos de suas criminosas investidas. Temem que o exemplo dos habitantes do Araguaia seja seguido por todo o povo.

A União Pela Liberdade e Pelos Direitos do Povo e as Forças Guerrilheiras do Araguaia apelam para os moradores da região a fim de que engrossem a resistência à odiosa ditadura militar, aos grandes magnatas, aos grileiros e aos gringos norte-americanos que, no norte e nordeste do país, já se apoderaram de imensas extensões de terra e das ricas minas de ferro de Serra Norte perto de Marabá. A todos conclamam a se estruturar nos comitês da ULDP ou em outras formas de organização. Não há outro caminho para o povo senão o de combater valentemente os opressores. Cada lavrador, cada posseiro, cada trabalhador de fazenda ou castanhal, cada injustiçado, cada patriota, deve ajudar, de todos os modos, os que enfrentam sem temor as tropas do governo de traição nacional.

O povo unido e armado derrotará seus inimigos.

Abaixo a grilagem!

Viva a liberdade!

Morra a ditadura militar!

Por um Brasil livre e independente!

Em algum lugar da Amazônia, 25 de maio de 1972.

O Comando das Forças Guerrilheiras do Araguaia"

O desfecho da Guerrilha do Araguaia, em meados de 1975, deixou marcas profundas naquela região.

Diferentemente de guerrilha urbana, que cirurgicamente era combatida pela repressão sem que o povo tomasse conhecimento, no sul do Pará o processo se assemelhou a um banho de sangue.

A ditadura utilizou-se de duas táticas fundamentais, o expediente das Operações Aciso, de natureza assistencialista e a intensa violência perpetrada contra os guerrilheiros e a população local. Por exemplo, no então vilarejo de São Domingos das Latas todos os homens acima de 14 anos foram presos e muitos torturados até a náusea. Muitos camponeses foram obrigados, depois de presos e espancados, a servir de guias para as tropas oficiais.

Sabe-se, também, que dezenas de guerrilheiros e camponeses foram presos com vida e a repressão política passou de todos os limites, inclusive da Convenção de Genebra na qual o Brasil é signatário. Ali repetiu-se a mesma prática do velho entulho colonial português, o corta-cabeças, o que muito nos faz lembrar a figura heróica de Tiradentes. Assim, foi, por exemplo, com Osvaldão, a mais celebre figura da guerrilha e até hoje perpetuado nos cordéis araguaianos.

A ação das tropas oficiais que empreendeu a derrota da guerrilha foi dirigida diretamente pelo gabinete da Presidência da República, a partir da tríade dos generais Antônio Bandeira, Viana Moog e Hugo de Abreu. Ao perceberem que não poderiam derrotar a insurreição pelo modelo tradicional de combate tiveram que mudar a tática e empregaram fortemente o trabalho de informação através do Serviço Nacional de Informações (SNI) que consumiu quase todo o ano de 1973.

O fato é que, até hoje, muitos brasileiros estão desaparecidos e é nítida a existência no Araguaia de cemitérios clandestinos, como recentemente revelou o famigerado Major Curió. Segundo o principal quadro militar no combate a guerrilha do Araguaia, 41 pessoas foram presas e assassinadas a sangue frio pelas Forças Armadas no interior das matas paraenses.
 
Por Paulo Fonteles Filho

Nenhum comentário: